O Inferno? Somos nós.

O Inferno? Somos nós.

Depois de cinco apresentações no Bar Pinguim Café, no início de abril, a performance “Urro” está de regresso. Quem quiser subir ao ringue, poderá fazê-lo nas próximas semanas no Porto, Viana, Caldas da Rainha e Lisboa. E prepare-se para aguentar dois assaltos de uma peça que acerta lá onde dói.

Um gira-discos toca o single do John Lennon a 45 rotações, a música é o “Give Peace a Chance”. Três mesas alinhadas em U colocam o ator no meio da cena, de costas para o público, a ler um livro em branco. Mal acaba a música, o personagem vestido de roupão azul, de cetim, debruado com uma fita cor-de-rosa, tenta acordar para o mundo ouvindo discursos e músicas e máximas em cassetes de fita num velho leitor-gravador em formato de gaveta. Nada parece desassossegá-lo, como um depressivo com a medicação em dia, “meio ressacado para a vida mas bem-disposto, felicíssimo por o dia começar”, até que num laptop, o personagem se ouve a si próprio. Como se saísse da sua redoma de autorreclusão, aos poucos vai tomando consciência a caminho de perder as estribeiras. Não que essa consciência lhe sirva necessariamente para alguma coisa, não que

perca necessariamente as estribeiras, apenas se limite a racionalizar uma série de evidências, com ironia, sarcasmo ou até cinismo sobre a nossa sociedade, cujo excesso de positivismo transforma em descrença qualquer raciocínio menos otimista.

Podem 90 por cento dos trabalhadores contemporâneos, com consciência, não se ver representados nesta peça? Podem não se rever no amanhã proletário de “o teu sonho é vires a ser a síntese perfeita entre operário e capitalista”? É que esta frase de Júlio do Carmo Gomes podia ter sido escrita pelo filósofo germano-coreano Byung-Chul Han no seu livro essencial “A Sociedade do Cansaço” – onde nota e justifica que “o sujeito produtivo” contemporâneo “é senhor e soberano de si mesmo” e que é isso que o leva “à autoexploração”, “o ser explorado é simultaneamente o mesmo que explora”.

Pode qualquer pensamento crítico, qualquer fã dos vídeos de Zizek no Youtube não se sentir cómodo com uma crítica à opressão aparentemente libertária dos movimentos espiritualistas que aconselham a que “mal saias do trabalho, põe-te um hiper-mercado para te divertires, e se o shopping for demasiado primitivo para os teus anseios tens o Yoga e o Hare Krishna e o workshop de caril de chamuças para satisfazer a tua sofisticação”?

O texto não oferece alternativas, nem é essa a sua função, e deixa poucos inocentados, nem os precários (“reivindicares que és precário quer apenas dizer que queres exercer o direito a ser explorado”). O próprio narrador é uma espécie de desistente: “Deixa-te de lirismos e de políticas meu, não me chateies, pronto, eu deixo-te em paz, é só uma indisposição, ando mal da vesícula, são as pedras nos rins, mais nada, eu sossego, passa-me um copo de água com açúcar que eu já falei de mais”, embora seja mais palavroso do que Bartleby.

[alerta de spoiler] E chega uma altura em que cai o pano. Parece que os espetadores já levaram porrada suficiente, mas é um novo engano, como quando o ator se ouve a si próprio em gravações ou fala para um microfone sem fios – ou, outro engano, induzido pela cenografia, como se a primeira parte fosse uma revolta contra a modernidade, como se o gravador e o laptop e os livros e a música do John Lennon fosse sinal do passado mais do que perfeito e o presente um indicativo do futuro imperfeito. O pano levanta-se e o espetador que sobreviveu à contagem do árbitro, encostado às cordas, apanha ainda mais:

tu queres lá saber se os sonhos dos teus filhos são mortos à nascença, engendrados em Bruxelas e postos à circulação a partir de Frankfurt, tu não vês que os sonhos dos teus filhos estão enrolados em arame farpado? Será o arame-farpado virtual? Apenas na medida em que ele cumpre com o seu objetivo mais profundo, o de controlar o teu imaginário e falar por ti quando respondes: são só os filhos dos outros.”

“tu que és a única razão para que te enfatotreinem, enquanto lês as crónicas do Lobo Antunes e te ris de ti própria através dos imigrantes ucranianos, dos que apregoas de suficientes, dos primos que esqueceste nas Beiras ou nos Arcos de Valdevez, como toda a gente da nossa geração se esqueceu da broa e de amassar o pão e do Chico Francês, uma vida inteira no mar-alto a trazer o peixe que tu levas à boca, antes da neo-austeridade, antes da troika, antes dos novos eufemismos para endrominar a malta, já haviam pendurado pelo pescoço milhares de pescadores e de peixeiras, e tu não viste, e tu não quiseste ver, e tu viraste a cara para o lado”.
Um retrato cru, um espelho da crueza e da crueldade dos nossos dias de operários sem prole para serem proletários que são consumidores e vagamente cidadãos. Um retrato que vai ao âmago das nossas perguntas existenciais, enquanto espécie, enquanto sociedade, enquanto classe(s) e enquanto indivíduos.

Escrevia Bolaño que há um tempo de poesia e um tempo de boxe. Urro é um monólogo poético escrito para levar à cena em cima de um ringue.

Cartaz da peça Urro, no Porto

“URRO”, performance teatral em coprodução Apuro – Associação Cultural e Filantrópica e Dogma 12. Próximas apresentações no bar V5 (Porto) a 27 de abril; Pinguim Café (Porto) a 3, 4, 5 e 6 de maio; Auditório da ACEP (Viana do Castelo) a 13 de maio; Teatro da Rainha (Caldas da Rainha) a 2 de junho e na Ler Devagar (Lisboa) a 3 de junho.
Texto de Júlio do Carmo Gomes. Direção de Rui Spranger. Interpretação de Castro Guedes. Luz de Rui Damas. Captação Sonora de Eduardo Brandão. Edição Sonora de Hugo Moutinho. Colaboração musical de Rui David.

Crónica publicada originalmente no jornal Porto24

 

 

Filinto Pereira de Melo

Jornalista profissional desde 1993. Nos últimos anos é, sobretudo mas paralelamente, livreiro.