António Guerreiro: Odeio livros

António Guerreiro: Odeio livros

Sobre a crónica de José Pacheco Pereira sobre livrarias, escreve António Guerreiro, também no Público:
“Não é o livro que está em perigo (esse, é produzido em abundância); o que está em perigo (e não faltam no últimos anos os gritos de alarme, um pouco por todo o lado) é precisamente o sector da literatura, do ensaísmo, da ciência e das humanidades, que foi, até ao momento em que a edição seguiu o modelo do consumo e da produção industrial, o tronco da actividade editorial. Tanto livro, tanto livro, mas a maior parte do património literário está completamente ausente da edição e, ainda mais, das livrarias. Podemos dizer que os livros gozam hoje de um prestígio que, na generalidade, já não merecem; e que não há maior injustiça do que o triunfo deste canibalismo do lixo editorial que, ainda por cima, se alimenta do capital simbólico daqueles que ele devora. Este estado de coisas engendrou até a sua linguagem e os seus “conceitos”: as categorias de “ficção” e “não-ficção”, esse jargon que o sector editorial difundiu com sucesso por todo o lado, até nas páginas de crítica literária, representam a realização de um desígnio de simplificação e redução. Inventam-se as categorias e depois organiza-se o mudo em função delas.”

Filinto M