Quando Joaquim Castro Caldas pediu um subsidio para o suicídio e Pedro Tamen lho negou

“Um dia – como quase todos – acordei sereno estremunhado à noite. Estava farto do mundo em geral e de Portugal em particular. A cortesia era: vou-me matar. Saiu-me isto mas houve uma resposta porreira do outro lado. O que é mais divertido é que só a comunicação social estrangeira percebeu que eu estava a brincar. Portugal não.”
Joaquim Castro Caldas, Abril 2001

J.C.C.
Rua da Lapa, XX-X
1200 Lisboa
tel. XXXXXX

Ex.mo Sr.

De certa forma desenquadrado de e epidermicamente hostil ao tão inculto Surrealismo nacional (movimento irreversível que consiste em Surrar – O – Realismo às Minorias Absolutas através das Maiorias Anónimas) e na fiel linha lunática, tradição suicida e corrrented’ar estética da Poesia Portuguesa, venho por esta brevíssima e humilde missiva solicitar à Fundação Gulbenkian, sempre tão prestável e atenta, uma urgente audiência (na pessoa de V. Ex.a com quem, como tenho vindo ao longo dos anos a constatar e sem qualquer lisonja hipócrita, as novas gerações mais prezam o diálogo civilizado e o respeito pela inteligência) audiência essa destinada à concessão de um mísero (face aos vossos fartos recursos) subsídio que, não sendo por certo habitual pedir nem provar, muito honraria o brilho da vossa já quase secular instituição, contribuindo para uma nobre, sã, airosa, decidida e eficaz saída do meu penoso caso lírico pessoal.

Assim sendo, e não ousando abusar muito mais da infinitamente piedosa e tolerante curiosidade de V. Ex.a, passo d’imediato a expor o detalhado rosário de inconfessáveis e vis matérias primas ou sinistros objectos que me propus atribuir um (eventual) orçamento: um revólver (50 mil escudos); munições adequadas (20 mil escudos); um socrático litro de cicuta, um cálice de cobre e uma rodela de manga, para a hipótese de a primeira tentativa se amedrontar (P.V.); algum cianeto e bastante nitroglicerina, para a hipótese da segunda tentativa não passar de um romântico aperitivo ou de uma inconsequente chantagem moral (preço a regatear); cremação do corpo e lançamento de cinzas ao Tejo (500 mil escudos); cachet de 20 palhaços da Companhia de Circo de Lisboa para a citada cerimónia fúnebre (250 mil escudos); cachet da Banda dos Bombeiros Voluntários que chegarem primeiro executando a canção das Crianças Mortas do Mahler, na ocorrência (500 mil escudos, com desconto para poetas e afins); arredondando a coisa deve andar lá perto dos 1000 contos, o que é isso nos tempos que vai correndo? Convenhamos que toda a Morte que se estime não olha a meios para dignificar os seus fins…

Esperando contribuir com a minha modéstia para uma lufada na monotonia da correspondência de que, desejo temê-lo, V. Ex.a será vítima, e desde já agradecendo o vosso empenho generoso, sem mais por ora me subscrevo, com admiração pela paciência de santo de V. Ex.a, exalando confiança, irradiando ansiedade…

Joaquim Castro Caldas

Do outro lado, respondeu Pedro Tamen

Fundação Calouste Gulbenkian
Lisboa – PESSOAL

Ex.mo Senhor Joaquim Castro Caldas
Rua da Lapa, XX_X
1200 Lisboa

Lisboa, 31 de Julho de 1987

Caro Senhor

Tenho a honra de acusar a recepção da carta de Vossa Senhoria, sem data mas com lata, na qual solicita subsídio que lhe permita morrer com pompa (e não troco os bb pelos pp) e circunstância.

De início interroguei-me sobre a questão de saber em qual dos quatro fins da Fundação Gulbenkian (artísticos, educacionais, científicos e caritativos) tal desiderato se poderia inscrever, mas rapidamente cheguei à conclusão de que em qualquer deles, ou em todos concomitantemente, se inscreveria.

Pensei então em pedir e aliás douto parecer da Agência Barata (se bem que intuitivamente e adivinhasse que ela qualificaria o orçamento apresentado de sumptuário), mas referi, antes disso, procurar nos nossos arquivos antecedentes pedidos para o mesmo fim e verifiquei sem surpresa que – dada a premente necessidade de reduzir as nossas despesas – todos os numerosos apoios financeiros requeridos para viagens alternativas para Inferno, Céu ou Purgatório foram invariavelmente negados e, como é óbvio, não me parece curial a criação de precedentes.

Nestes termos, sinto informar V. Ex.a que não é possível atender a solicitação que me dirigiu, ainda que lamente o consequente facto de ficar condenado a viver mais alguns anos. A não ser que – se me permitir uma sugestão – opte pela solução da corda, do gancho e do banquinho, solução que, por ser barata, poderá até ser apoiada pela Secretaria de Estado da Cultura. Ou ainda (porque não?) – e eis uma variante absolutamente gratuita – a solução do lago do Campo Grande, desde que obtida prévia autorização do Senhor Eng. Nuno Abecassis

Entretanto, sou de V. Ex.a

Atentamente até ao Outro Mundo
e muito mais depois,

Pedro Tamen

Estão a comprar o Fire and Fury errado

O alerta é do autor, Randall Hansen, na sua página do Twitter. Estão a comprar o seu livro Fire and Fury: The Allied Bombing of Germany, 1942-1945 em vez de comprarem o livro bomba sobre o primeiro da administração Trump Fire and Fury: Inside the Trump White House.
A notícia está no DN.

Livros do ano de Barack Obama

O ex-presidente dos EUA e estrela mundial Barack Obama publicou no Facebook os seus livros de 2017.

The Power by Naomi Alderman
Grant by Ron Chernow
Evicted: Poverty and Profit in the American City by Matthew Desmond
Janesville: An American Story by Amy Goldstein
Exit West by Mohsin Hamid
Five-Carat Soul by James McBride
Anything Is Possible by Elizabeth Strout
Dying: A Memoir by Cory Taylor
A Gentleman in Moscow by Amor Towles
Sing, Unburied, Sing by Jesmyn Ward
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Rascunho automático

Virginia Woolf disfarçada de príncipe da Etiópia, com um grupo de amigos. Conseguiu assim dar um passeio num barco real.

Virginia Woolf and Friends Dress Up as “Abyssinian Princes” and Fool the British Royal Navy (1910). The hoax, masterminded by Cole, began when he sent a telegram to the ship telling the crew to expect a visit from some North African dignitaries. Once on board, the group spoke in accented Latin (quoting the Aeneid) and gibberish. Woolf kept quiet so as to disguise her gender. One of the officers on the ship was a cousin of Virginia and Adrian, but he failed to recognize them. It wasn’t a flawless performance on either side: at one point, Buxton sneezed and almost lost his mustache, and the Navy, unable to find an Abyssinian flag, flew the flag of Zanzibar instead.