António Guerreiro: Odeio livros

Sobre a crónica de José Pacheco Pereira sobre livrarias, escreve António Guerreiro, também no Público:
“Não é o livro que está em perigo (esse, é produzido em abundância); o que está em perigo (e não faltam no últimos anos os gritos de alarme, um pouco por todo o lado) é precisamente o sector da literatura, do ensaísmo, da ciência e das humanidades, que foi, até ao momento em que a edição seguiu o modelo do consumo e da produção industrial, o tronco da actividade editorial. Tanto livro, tanto livro, mas a maior parte do património literário está completamente ausente da edição e, ainda mais, das livrarias. Podemos dizer que os livros gozam hoje de um prestígio que, na generalidade, já não merecem; e que não há maior injustiça do que o triunfo deste canibalismo do lixo editorial que, ainda por cima, se alimenta do capital simbólico daqueles que ele devora. Este estado de coisas engendrou até a sua linguagem e os seus “conceitos”: as categorias de “ficção” e “não-ficção”, esse jargon que o sector editorial difundiu com sucesso por todo o lado, até nas páginas de crítica literária, representam a realização de um desígnio de simplificação e redução. Inventam-se as categorias e depois organiza-se o mudo em função delas.”

Meta-crítica literária, «A Cada Esquecido o seu Adido» de Luís Miguel Rosa

Sabemos, desde Álvaro Ribeiro, que em Portugal a poesia substituiu a filosofia, os poetas foram os nossos maiores pensadores, os seus versos assombram-nos com todo o rigor do seu acúmen sentimental“, escreve Luís Miguel Rosa no seu blogue Homem-do-Livro. O post “A Cada Esquecido o seu Adido” é um análise da crítica literária, nomeadamente de um ponto recorrente, a “crença casmurra de estarmos sempre a um passo de perdermos o património, de espreitarmos da beira dum precipício um abismo sempre atarefado a abocanhar toda a nossa história, toda a nossa identidade, condenando todos nós à amnésia“. Numa análise que começa no século XIX e vem até os nossos dias.

“Não passa uma semana sem o Público, o Expresso, o Diário de Notícias,nos terrorizarem com um horizonte vazio de referências ou nos fazerem sentir idiotas por não lermos o falecido dilecto do cronista”, sugere, “este tipo de discurso, entre o choradinho e o raspanete, já se tornou um género literário com estrutura própria, como romances de cavalaria ou relações de naufrágios quinhentistas”.

Corrigindo erros históricos, destapando incongruências e apontando preferências pessoais ou geracionais travestidas de opiniões fundadas, o autor traça um retrato muito interessante da crítica e jornalismo cultural português.

O blogue aqui.

Will Self escreve sobre os romances difíceis e de como é essencial que continuem a ser escritos

“There’s no doubt that in an era of cultural over-abundance, when a few keystrokes can—as if you were some cultural Midas—deliver to you all the literary, filmic and televisual riches the wide world has to offer, the notion of a “difficult” novel becomes almost exponentially harder to sell. But perhaps this figuration gives the game away: difficult novels have never been cultural artefacts you hard sell to anyone; their very existence is predicated on the distinction between cultural and financial capital that, under existing neoliberal conditions, is being comprehensively annihilated. No, a difficult novel has always been something readers aspire to, even if that aspiration only took the form of buying a leather-bound volume from the Book of the Month Club and leaving it to gather dust on your shelves. Unfortunately, I believe that aspiration is now comprehensively waning, as the novel moves from the centre stage of Western culture to its wings. Of course, people will object along these lines: “Joyce’s Ulysses only garnered a smattering of writers during his lifetime—and considering it’s regarded by many critics to be the most important novel of the 20th century, it’s hardly attracted that many since his death…” However, it’s worth considering how different the times were—Ulysses was banned in many countries for obscenity, while literacy and general education levels were far lower in the 1920s.”

Do Literary Hub

Reportagem ficcionada no FOLIO 2016

[reportagem ficcional realizada no FOLIO 2016, chamada “Onda de Famosos no Festival Literário de Óbidos” publicada na TKNT]

[O FOLIO começou hoje]

Quitério vibrou quando recebeu uma nova mensagem, tinha configurado o sinal no iphone para ser alertado das que chegavam da revista onde trabalhava, a Nova Gente. Abriu logo – devia ser o trabalho da semana, ou alguma emergência. Era o trabalho da semana. “Qr q faças ist, dps briefo”, era a mensagem simplificada com um link para o Folio. Quitério estranhou, um festival literário?

Que interesse podia ter um festival literário para a Nova Gente? Os trabalhos que lhe davam implicavam tantas vezes conversar com epifenómenos mediáticos construídos pelos reality shows que raramente conseguiam conjugar um verbo simples e que alteravam livremente sujeitos, predicados, adjetivos, figuras de estilo… E agora queriam um festival literário? Esperaria pelo briefing.

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O Inferno? Somos nós.

Depois de cinco apresentações no Bar Pinguim Café, no início de abril, a performance “Urro” está de regresso. Quem quiser subir ao ringue, poderá fazê-lo nas próximas semanas no Porto, Viana, Caldas da Rainha e Lisboa. E prepare-se para aguentar dois assaltos de uma peça que acerta lá onde dói.

Um gira-discos toca o single do John Lennon a 45 rotações, a música é o “Give Peace a Chance”. Três mesas alinhadas em U colocam o ator no meio da cena, de costas para o público, a ler um livro em branco. Mal acaba a música, o personagem vestido de roupão azul, de cetim, debruado com uma fita cor-de-rosa, tenta acordar para o mundo ouvindo discursos e músicas e máximas em cassetes de fita num velho leitor-gravador em formato de gaveta. Nada parece desassossegá-lo, como um depressivo com a medicação em dia, “meio ressacado para a vida mas bem-disposto, felicíssimo por o dia começar”, até que num laptop, o personagem se ouve a si próprio. Como se saísse da sua redoma de autorreclusão, aos poucos vai tomando consciência a caminho de perder as estribeiras. Não que essa consciência lhe sirva necessariamente para alguma coisa, não que

perca necessariamente as estribeiras, apenas se limite a racionalizar uma série de evidências, com ironia, sarcasmo ou até cinismo sobre a nossa sociedade, cujo excesso de positivismo transforma em descrença qualquer raciocínio menos otimista.
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