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O Inferno? Somos nós.

Depois de cinco apresentações no Bar Pinguim Café, no início de abril, a performance “Urro” está de regresso. Quem quiser subir ao ringue, poderá fazê-lo nas próximas semanas no Porto, Viana, Caldas da Rainha e Lisboa. E prepare-se para aguentar dois assaltos de uma peça que acerta lá onde dói.

Um gira-discos toca o single do John Lennon a 45 rotações, a música é o “Give Peace a Chance”. Três mesas alinhadas em U colocam o ator no meio da cena, de costas para o público, a ler um livro em branco. Mal acaba a música, o personagem vestido de roupão azul, de cetim, debruado com uma fita cor-de-rosa, tenta acordar para o mundo ouvindo discursos e músicas e máximas em cassetes de fita num velho leitor-gravador em formato de gaveta. Nada parece desassossegá-lo, como um depressivo com a medicação em dia, “meio ressacado para a vida mas bem-disposto, felicíssimo por o dia começar”, até que num laptop, o personagem se ouve a si próprio. Como se saísse da sua redoma de autorreclusão, aos poucos vai tomando consciência a caminho de perder as estribeiras. Não que essa consciência lhe sirva necessariamente para alguma coisa, não que

perca necessariamente as estribeiras, apenas se limite a racionalizar uma série de evidências, com ironia, sarcasmo ou até cinismo sobre a nossa sociedade, cujo excesso de positivismo transforma em descrença qualquer raciocínio menos otimista.
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